quarta-feira, 1 de julho de 2009

MARCANTE

Eram seis horas da manhã daquele sábado de Janeiro, em tempos idos. Verifiquei o nivel de óleo e água, certificando-me que estava em condições de fazer mais uma daquelas viagens que lavava a minha alma. Coloquei o motor a trabalhar sem acelarar e senti o pulsar lento e o suave ronco daquele jeep Land-Rover, companheiro de tantas viagens. No banco, deitada uma 375 Magnum. Tanque cheio, garrafão de água, duas sandes de queijo, lanterna, faca de mato e uma vontade louca de me fazer à estrada. Sinal verde, recebi o aceno carinhoso de despedida de minha velha mãe. Vagarosamente, por entre a plantação de cana da Cassequel, fui rumando ao Lobito. Subi o Alto da Boavista e apanhei a estrada de Novo Redondo. As casas começaram a escassear e a surgir plantação rasteira. Agora sim era a África que eu tanto amava.
Imbondeiros a perder de vista. Aquela savana que abriga espécies de animais tão diversos. Depois de passar a Canjala, faltaria muito pouco, para entrar numa picada que ficava à esquerda e que me levaria ao Egito-praia. Aí sim, era o verdadeiro encontro com a Natureza em toda a sua essência.
O caminho esburacado pelas chuvas, obrigava a reduzir a velocidade. Entre uma primeira e uma segunda, abria-se caminho por entre a vegetação que teimava em fechar a picada. Pedras rolavam das encostas dos morros, transformando-a quase que numa escada. Por vezes antilopes e até leões cruzavam a frente do jeep. Muitos pés de sisal bravio, vergados ao vento, indicavam a seca. Mais além, só mato mato rasteiro abria o horizonte. E de novo na curva do velho Cancelinha, começava a descida do morro da pedra. Nem uma erva nascia naquela aridez. Devo ter esmagado centenas de lacraus, únicos sobreviventes que por ali se atreviam a viver. A descida acabara e entrava-se na última savana que tinha poucos quilómetros, sempre ladeado de velhos troncos, secos pela falta de água. Começava a subida do morro da fortaleza. E então quando se chegava ao topo, surgia aquela visão inesqueçivel. O Egito-praia lá embaixo, por entre uma vegetação luxuriante. Grandes palmeiras emolduravam suas velhas ruinas. O rio serpenteava em tons de barro, preguiçosamente até à foz. Quando entrava num mar de águas cor de turquesa, , abraçavam-se carinhosamente e fundiam-se numa só cor. Barcos de pesca espreguiçavam-se nas brancas areias da praia, enquanto velhos homens remendavam as redes. Crianças banhavam-se no rio margeado de papiros e cana de açúcar. Coqueiros vergados pelo vento, debruçavam-se sobre a terra coberta de capim verde forte, espalhando sua sombra. Na vasta praça de terra batida, por tantos anos de uso, uma dezena de pessoas, trocavam óleo de palma por peixe seco, outras, farinha por mexilhões. E nese vai e vem, lindas mulheres de pele coberta por óleos e vestidas de panos coloridos, namoriscavam por entre olhares envergonhados, seus eleitos. Um chimpanzé amarrado a uma árvore, fazia as crianças se diliciarem com suas tropelias.
Um Egito-praia cheio de vida, multicolorido, de contrastes enebriantes. Hoje calmo pelo isolamento e abandono, onde outrora fervilhava pelo comércio de escravos. Ainda se sente no ar o passado que este lugar paradisiaco, foi palco de tanta violência.

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Embora a ideia deste espaço ser direcionado ao Egito - praia, poderemos desenvolver outros assuntos que possam trazer proventos ao conheçimento, ás artes e a tudo que engrandeça tanto o espirito como o bem-estar

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"AMIGOS DO EGITO-PRAIA"

A todos que conheçeram o Egito-praia, decerto ficou uma grande saudade e um forte desejo de lá tornar a voltar!
E quem não teve a oportunidade de por lá passar, que o futuro se encarregue, de lhe ofereçer essa grata oportunidade.

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